Mulheres na História do Brasil: protagonismo e exemplos

Apesar da invisibilidade imposta pela historiografia tradicional, as mulheres desempenharam papéis decisivos de liderança, resistência e transformação na formação histórica do Brasil.

Maria Quitéria: disfarçou de homem para lutar na Guerra da Independência do Brasil, tornando-se símbolo de coragem e patriotismo.
Maria Quitéria: disfarçou de homem para lutar na Guerra da Independência do Brasil, tornando-se símbolo de coragem e patriotismo.



Desafiando a narrativa (a necessidade de um novo olhar)


Onde estavam as mulheres enquanto a História do Brasil era feita? Essa pergunta, provocativa e necessária, convida à reflexão sobre os silêncios e apagamentos que permeiam os registros históricos.

Durante séculos, a história foi escrita sob uma ótica predominantemente masculina, que priorizou os feitos de governantes, militares e líderes religiosos homens, relegando as mulheres a papéis secundários ou simbólicos. No entanto, sob a superfície dessa narrativa, inúmeras mulheres exerceram papéis de liderança, resistência, intelectualidade e poder, deixando marcas profundas na formação da sociedade brasileira. 



Mulheres no período pré-colonial colonial

A história do Brasil anterior à colonização portuguesa foi marcada pela diversidade étnica e cultural dos povos indígenas, entre os quais as mulheres desempenhavam funções centrais. Longe da visão eurocêntrica que as descreve como passivas, as mulheres indígenas eram líderes espirituais, curandeiras, conselheiras e, em alguns casos, chefes de guerra. Elas possuíam poder simbólico e social, participando das decisões comunitárias e garantindo a continuidade dos saberes tradicionais.


O período colonial e o império: a influência por trás das cortinas e a rebeldia

 

Nos quilombos, formados por pessoas escravizadas em fuga e seus descendentes, o protagonismo feminino também foi decisivo. Tereza de Benguela, conhecida como rainha do Quilombo do Quariterê, no atual Mato Grosso, governou uma comunidade estruturada politicamente, com sistemas de defesa e comércio. Sua liderança simboliza a capacidade organizativa e o espírito de resistência das mulheres negras.


Da mesma forma, Dandara dos Palmares, guerreira do Quilombo dos Palmares, atuou ativamente nas estratégias militares e políticas ao lado de Zumbi. Mais do que companheira, foi uma combatente e símbolo da luta pela liberdade e pela dignidade do povo negro no Brasil colonial.

Durante os séculos coloniais e imperiais, as mulheres enfrentaram o confinamento social imposto pela estrutura patriarcal, mas encontraram meios de exercer influência e resistência. As matriarcas, em muitos casos, administravam fazendas, negócios e famílias, desempenhando papel fundamental na manutenção da economia doméstica e do prestígio social. O poder dessas mulheres se manifestava nos bastidores, em um contexto que valorizava o silêncio e a obediência feminina, mas onde a astúcia e a autoridade feminina eram indispensáveis.

Em movimentos políticos e revolucionários, a presença feminina também se fez notar. Na Inconfidência Mineira, Hipólita Jacinta de Mello se destacou como figura de apoio logístico e guardiã de segredos, atuando na rede de comunicação dos conspiradores.


Durante as guerras e revoltas, as vivandeiras (mulheres que acompanhavam os exércitos) desempenhavam papéis essenciais, garantindo o abastecimento e o cuidado dos soldados. Entre elas, destaca-se Maria Quitéria, que, disfarçada de homem, lutou na Guerra da Independência e se tornou um símbolo de coragem e patriotismo. Sua atitude desafiou os limites impostos pelo gênero e mostrou que o heroísmo feminino também se escreve nos campos de batalha.



O século XIX e o despertar intelectual e abolicionista

O século XIX foi o cenário do despertar das vozes femininas no campo intelectual e político. Com o avanço da imprensa e o surgimento de espaços de debate público, mulheres começaram a se manifestar em defesa da educação e da emancipação. Nísia Floresta Brasileira Augusta foi uma das pioneiras nesse movimento. Educadora, escritora e defensora dos direitos das mulheres, ela publicou textos que criticavam a exclusão feminina da instrução formal e propunham um novo papel para a mulher na sociedade brasileira. Sua obra representou um marco no pensamento feminista nacional.

O movimento abolicionista também contou com a participação ativa de mulheres negras e brancas, que se engajaram em campanhas, escreveram manifestos e atuaram em redes de solidariedade, abrigando e auxiliando pessoas escravizadas em fuga. Muitas dessas ações eram realizadas de maneira anônima, o que explica a dificuldade em reconhecer seus nomes nas fontes oficiais.


Embora a história tenha consagrado a figura da Princesa Isabel como símbolo da abolição, é fundamental compreender que sua assinatura na Lei Áurea foi o ponto culminante de um movimento social amplo e plural, sustentado por uma longa trajetória de resistência, tanto coletiva quanto individual, protagonizada por mulheres de diferentes origens.



A República Velha: a luta pelo voto e a política


Com a Proclamação da República e o avanço do século XX, as mulheres começaram a se organizar de forma mais explícita em torno de reivindicações políticas.


O movimento sufragista brasileiro teve início nesse período, articulando intelectuais, professoras e ativistas que exigiam o direito ao voto e à participação na vida pública. A criação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderada por Bertha Lutz, marcou uma nova etapa na luta feminista. Lutz, bióloga e diplomata, tornou-se uma das principais vozes em defesa da igualdade política e jurídica entre homens e mulheres.

Outra figura relevante foi Celina Guimarães Viana, a primeira eleitora legalmente registrada no Brasil, no estado do Rio Grande do Norte. Seu ato pioneiro, em 1927, representou uma brecha na exclusão política feminina e inspirou outras mulheres a reivindicarem o mesmo direito. A conquista do voto feminino em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, foi resultado direto desse movimento, fruto da persistência e da mobilização das mulheres da República Velha, que enfrentaram preconceitos e resistências institucionais para garantir sua cidadania plena.



Conclusão: a herança e a continuidade da luta

A história das mulheres no Brasil é uma história de resistência, poder e coragem. Desde as líderes indígenas e quilombolas até as intelectuais, sufragistas e guerreiras, as mulheres sempre estiveram presentes na construção do país, ainda que invisibilizadas pelos registros oficiais. Elas administraram, lutaram, escreveram, ensinaram e transformaram as estruturas sociais de seu tempo, abrindo caminho para as gerações futuras.

A luta por reconhecimento, igualdade e representatividade iniciada por essas pioneiras continua a reverberar nas pautas femininas contemporâneas, que buscam ampliar o espaço das mulheres na política, na ciência, na cultura e na economia. Reconhecer o protagonismo invisível das mulheres é, portanto, um ato de justiça histórica e de reconstrução da memória nacional. Ao resgatar suas trajetórias, compreendemos que a verdadeira história do Brasil é plural, e que a voz feminina sempre foi uma força essencial na formação de nossa identidade coletiva.

 

 

Tereza de Benguela

Tereza de Benguela foi uma líder negra que governou o Quilombo do Quariterê, no atual estado do Mato Grosso, no século XVIII. Sob sua liderança, a comunidade quilombola desenvolveu uma estrutura política e econômica organizada, com sistema de defesa e produção agrícola. É lembrada como símbolo da resistência negra e da luta pela liberdade no Brasil colonial.

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 31/10/2025