As mulheres no Cangaço: participação e exemplos de cangaceiras
As mulheres tiveram papel fundamental no cangaço, atuando na organização dos bandos, em combates e na construção da imagem pública do movimento, destacando-se figuras como Maria Bonita e Dadá.
Introdução: o que foi o cangaço?
O cangaço foi um fenômeno social e político do sertão nordestino, marcado por bandos armados que circularam amplas faixas do interior, estabelecendo relações ambíguas com comunidades rurais, coronéis e autoridades. Inserido em um contexto de seca recorrente, coronelismo, pobreza e fragilidade do Estado, o cangaço articulou práticas de proteção, retaliação e oportunidade econômica, ao mesmo tempo em que produziu códigos próprios de honra, estética e disciplina.
Longe de se limitar a ações de saque e confronto, teve dimensões culturais e simbólicas que dialogavam com o imaginário do sertão. Nesse universo, a presença feminina não foi acessória: mulheres entraram nos bandos, participaram de decisões táticas, reorganizaram rotinas de acampamento, interferiram em redes de apoio e produziram sentidos públicos sobre o cangaceiro e sua sociabilidade.
Como as mulheres entravam e participavam do cangaço
O ingresso feminino nos bandos seguiu trajetórias variadas, que vão da adesão afetiva à coação. Em muitos casos, mulheres aproximaram-se por vínculos amorosos com líderes ou integrantes, atraídas por prestígio, promessa de mobilidade e proteção num sertão permeado por hierarquias rígidas. Em outros, houve raptos e arrastos, realidade que expõe a violência de gênero presente no fenômeno e exige cautela analítica para não romantizar vínculos fundados em assimetrias de poder. Há também relatos de mulheres que, conhecedoras de rotas e sociabilidades locais, ofereceram-se como parceiras estratégicas, aportando saberes domésticos e redes familiares capazes de aproximar coiteiros, garantir pouso e facilitar o trânsito por territórios hostis.
A participação cotidiana foi ampla. Muitas cangaceiras exerceram funções de intendência e logística: organização de mantimentos, distribuição de água, preparo de refeições, manutenção de roupas e armamentos, sutura de ferimentos e cuidados sanitários para mitigar agravos típicos do ambiente sertanejo. Em deslocamentos, eram capazes de carregar equipamentos, vigiar retaguardas, recolher informações em vilas e feiras, aproximar intermediários e negociar com moradores. Algumas receberam treinamento de tiro e participaram ativamente de emboscadas, revezando funções de sentinela e garantindo a segurança do acampamento. Noutras ocasiões, praticaram espionagem de baixa visibilidade, circulando com discrição para mapear a presença de forças volantes, identificar informantes e avaliar riscos de cerco.
No plano simbólico, as mulheres tensionaram padrões patriarcais do sertão. A adoção de roupas adaptadas, o uso de lenços, chapéus com adornos de metal e a circulação armada criaram imagens públicas que tanto fascinavam quanto escandalizavam. Essas imagens operaram como propaganda política e instrumento de controle social: o bando se apresentava como família ampliada, com regras de conduta e punição, mas a presença feminina também servia de linguagem de distinção, convertendo o acampamento em espaço de sociabilidade com etiqueta, música, fotografia e cuidado estético. Isso conferia legitimidade interna e projetava ao exterior uma aura de ordem, ainda que fundada em violência.
Dimensões de poder e violência
A participação feminina no cangaço não deve ser abordada com romantização. Houve experiências de autonomia e escolhas, mas também se deram relações atravessadas por coercão e violência, incluindo raptos, punições internas e controle severo da circulação e dos afetos. Em determinados bandos, normas rígidas prescreviam comportamento, vestimenta e punições exemplares. A sexualidade era regulada pelo líder e por códigos de honra que, embora desenhassem um ideal de família ampliada, preservavam assimetrias patriarcais. As forças repressivas, por sua vez, direcionavam contra as mulheres estratégias de intimidação que envolviam estigmatização pública, humilhações e ameaças direcionadas aos filhos, mecanismo que visava quebrar a coesão do grupo.
Trabalho, cuidado e guerra
A vida em deslocamento exigia das cangaceiras um equilíbrio difícil entre cuidado e guerra. Em marcha, mulheres preparavam refeições rápidas com recursos escassos, avaliavam pontos de água e sombra, administravam estoques e monitoravam a saúde do grupo. Em combate ou retirada, revezavam-se como olheiras e atiradoras, recolhiam feridos e reorganizavam a bagagem. Em pousos mais longos, criavam rotinas de ordem e higiene, reparavam armamentos e davam manutenção a sapatos e arreios, elemento crucial para atravessar caatingas e chapadas. A ideia de que o cangaço era apenas uma guerra de homens esbarra na materialidade do cotidiano: sem a divisão de tarefas que envolvia trabalho feminino, a capacidade de sobrevivência e mobilidade do bando ficaria comprometida.
Estética, fotografia e opinião pública
As mulheres tiveram papel central na construção da estética do cangaço e na gestão da própria imagem. Roupas bordadas, joias, fitas e chapéus ornamentados dialogavam com aspirações de distinção e honra, mas também funcionavam como tática psicológica ao produzir impacto visual. A fotografia, adquirida em vilas ou encomendada, foi dispositivo de propaganda e registro. Em retratos posados, cangaceiras exibiam armas, indumentária e postura, fabricando uma narrativa de bravura e controle. Ao circular, essas imagens influenciavam percepções urbanas e sertanejas, alimentando tanto o fascínio quanto a repulsa. A presença feminina nesses retratos desafiava concepções locais de recato, gerando debates sobre moralidade e poder.
Religião, cura e moralidade
Práticas religiosas e de cura também passaram pelas mãos das cangaceiras. Benzimentos, promessas, uso de plantas medicinais e amuletos eram mobilizados para enfrentar medo, dor e incerteza. A religiosidade funcionava como gramática de sentido para atribuir causalidade às vitórias e derrotas, e para controlar a conduta interna. Muitas mulheres eram guardiãs de rezas e chás, acumulando autoridade simbólica. No campo da moralidade, a presença feminina forçou os bandos a explicitarem códigos de relacionamento, casamento e punição, convertendo valores do sertão em normas coletivas, por vezes com alto custo para as próprias mulheres.
Memórias e silenciamentos
A memória do cangaço privilegiou líderes masculinos, relegando as cangaceiras a papéis secundários. Esse silenciamento foi tanto produto de hierarquias internas quanto do olhar externo, que preferiu retratá-las como apêndice romântico da aventura sertaneja. A documentação posterior, contudo, recuperou vozes femininas que narraram o cotidiano, descreveram violências e reivindicaram agência. Essa disputa memorial é campo de pesquisa fértil, no qual objetos, roupas, fotografias e depoimentos permitem reconstituir o trabalho invisível que sustentou a máquina do bando.
Exemplos de cangaceiras:
1. Maria Bonita
Conhecida por seu protagonismo ao lado de Lampião, Maria Bonita tornou-se uma figura emblemática da presença feminina no cangaço. Sua atuação ultrapassou a dimensão afetiva: organizava a rotina dos acampamentos, opinava em deslocamentos e estratégias, e servia de ponte com coiteiros e moradores que reconheciam nela uma autoridade específica. Na dimensão simbólica, ajudou a consolidar um repertório estético que marcou a iconografia do cangaço, do uso de chapéus e bornais ornados à composição dos retratos posados. Sua figura condensou ao mesmo tempo transgressão e norma: mulher armada, em movimento, mas zelosa da etiqueta do bando, influenciando códigos de convivência e punição.
2. Dadá
Sérgia Ribeiro, a Dadá, parceira de Corisco, destacou-se pela versatilidade. Atuou na logística de acampamentos, fabricou e remendou roupas e bornais, cuidou de feridos e dominou o manejo de armas, participando de confrontos e retiradas. Sua trajetória posterior adquiriu relevância histórica, pois se empenhou em preservar e organizar a memória material do cangaço, reunindo objetos e imagens e disputando publicamente a narrativa sobre o que foi aquela experiência. Em Dadá, cruzam-se agência feminina, resistência e mediação entre mundos da violência e da história, aspecto crucial para compreender como a memória do cangaço foi sendo elaborada.
3. Sila
Sila, companheira de Zé Sereno, combinou presença no front com forte papel na retaguarda. Responsável por aprendizados de tiro, por cuidados com doentes e por uma disciplina cotidiana que envolvia limpeza de armas e higiene, Sila também desempenhou tarefas de reconhecimento de terreno. Relatos destacam sua coragem em passagens de cerco e retirada, bem como uma voz ativa na organização do acampamento, reforçando a ideia de que o protagonismo feminino não se reduzia à esfera privada.
4. Durvinha
Durvinha, ligada ao bando de Dadá e Corisco, é lembrada pela capacidade de transitar entre papéis. Em momentos de mobilidade intensa, assumia funções de centinela e apoio armado; em períodos de pouso, era referência no cuidado sanitário, algo vital ante infecções e agravos comuns do sertão. A sua trajetória posterior, ao reorganizar a vida fora do cangaço, ilumina os dilemas enfrentados por mulheres que, após a dissolução dos bandos, precisaram reconstruir identidades em ambientes urbanos e rurais que tanto estigmatizavam quanto folclorizavam o passado cangaceiro.
5. Lídia
A figura de Lídia exemplifica as ambiguidades da inserção feminina: presença jovem, por vezes atravessada por relações de força, mas que aos poucos assumiu tarefas de confiança na comunicação entre grupos e no trato com coiteiros. Lídia evidencia a pluralidade de trajetórias, ora marcadas por vínculos afetivos, ora por circunstâncias de imposição, sempre atravessadas pela necessidade de sobrevivência em contexto de perseguição constante.
6. Inacinha
Inacinha compôs a engrenagem silenciosa da sustentação cotidiana do bando, com destaque para a alimentação, o transporte de pertences e a arrumação do acampamento. Sua atuação reforça a noção de que a eficiência militar do cangaço dependia de uma intendência precisa, definida por alimentos preserváveis, controle de água, reparos de tecido e couro, e atenção aos detalhes que mantinham o grupo operante.
Outras presenças femininas
Há registros de outras mulheres que integraram diversos bandos, em geral deixadas à sombra dos grandes nomes. Essas presenças, por menos documentadas, foram fundamentais para manter a rede de alianças com moradores e fazendeiros, circular boatos como ferramenta de desinformação, costurar uniformes adaptados ao clima e cuidar de recém-nascidos em marcha.
Vale destacar que, em alguns casos, mães com crianças pequenos tiveram de seguir o bando, impondo um ritmo diferente aos deslocamentos. Mulheres também atuaram como mediadoras linguísticas e culturais, orientando sobre as normas locais, o calendário de feiras e festividades, e as sensibilidades de cada região.
Conclusão
A participação de mulheres no cangaço reposiciona o fenômeno como experiência social complexa, que não se esgota na equação entre banditismo e repressão. Ao ingressarem nos bandos, elas ampliaram as capacidades de mobilidade, logística e mediação, e contribuíram para criar um repertório simbólico que sustentou a coesão do grupo e sua imagem pública. Ao mesmo tempo, viveram sob códigos que reproduziam e intensificavam assimetrias patriarcais, em um regime de disciplina que podia incluir coerção, punição e controle dos afetos. Entre a agência e a violência, entre o protagonismo e o silenciamento, a trajetória das cangaceiras ilumina contradições do sertão: elas foram simultaneamente construtoras de sociabilidade, guardiãs da ordem interna, combatentes ocasionais e alvos preferenciais da estigmatização.
Devemos evitar tanto a idealização quanto a demonização. O cangaço foi terreno de escolhas dramáticas condicionadas por pobreza, seca, redes de poder e fragilidade institucional. As mulheres, inseridas nesse quadro, foram capazes de imprimir marcas duradouras na vida dos bandos e nas memórias do sertão. O desafio interpretativo está em reconhecer sua contribuição material e simbólica sem encobrir as violências de gênero e os limites impostos pela hierarquia interna.
Ao recolocar as cangaceiras no centro da narrativa, compreende-se melhor a engrenagem que possibilitou ao cangaço sobreviver por tanto tempo e a razão pela qual suas imagens ainda convocam debates sobre poder, honra, justiça e pertencimento no Brasil profundo.
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| Cangaceira Dadá (Sérgia Ribeiro da Silva Chagas) ao lado do companheiro Corisco |
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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 21/10/2025
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Fontes de Pesquisa e Bibliografia Indicada
Fontes de pesquisa:
FREITAS, Ana Paula Saraiva de. A presença Feminina no Cangaço: Práticas e Representações (1930-1940). Dissertação (Mestrado em Letras). Assis-SP: UNESP, 2005.
Cangaceiras em Cena - Anpuh
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