As Mulheres de Canudos: agência, resistência e o silêncio historiográfico
As mulheres de Canudos foram protagonistas silenciadas que sustentaram, com fé e resistência, a comunidade de Belo Monte e desafiaram a exclusão imposta pela historiografia patriarcal.
Introdução
A presença feminina na Guerra de Canudos (1896-1897) é um tema de profunda relevância para a história social do Brasil. Contudo, o protagonismo das mulheres no arraial de Belo Monte permaneceu obscurecido por uma tradição historiográfica centrada em narrativas masculinas e militares. Este artigo propõe ir além da crônica superficial: ele busca dar visibilidade à agência e à resistência das mulheres que, ao aderirem ao movimento, não apenas buscavam fé, mas um refúgio social, tornando-se peças estruturantes da contra-sociedade de Belo Monte.
Analisaremos de que forma a atuação feminina (na economia, na religião e na defesa) representou um desafio às estruturas patriarcais e republicanas, e como esse papel crucial foi sistematicamente relegado à invisibilidade pelo silêncio historiográfico.
A formação de Belo Monte e o contexto social do sertão
No final do século XIX, o sertão baiano enfrentava um cenário de extrema pobreza, seca prolongada e ausência de políticas públicas. Nesse contexto, o arraial de Belo Monte surgiu como um refúgio social e espiritual para camponeses, ex-escravizados, indígenas e marginalizados pelo Estado republicano. As mulheres aderiram ao movimento não apenas por devoção religiosa, mas por enxergarem nele a possibilidade de uma vida digna e comunitária.
A comunidade e o papel social das mulheres
As mulheres em Canudos foram agentes centrais da vida cotidiana e da resistência. Elas cultivavam alimentos, costuravam roupas, cuidavam dos feridos, transportavam munições e atuavam como mensageiras entre diferentes núcleos do arraial. Sua contribuição ia além da esfera doméstica: sustentavam a logística da sobrevivência e representavam a força moral do movimento. Canudos, portanto, não foi apenas um espaço de fé, mas também de redefinição do papel feminino na sociedade sertaneja.
A imagem feminina nas fontes oficiais e o discurso patriarcal
Os relatos militares e jornalísticos da época retratavam as mulheres de Canudos de forma pejorativa, associando-as ao fanatismo religioso e à barbárie. Essa visão estava alinhada ao discurso civilizatório da Primeira República, que considerava o sertão um espaço atrasado e perigoso. As mulheres, nesse contexto, eram duplamente silenciadas: por integrarem um movimento popular e por desafiarem as normas patriarcais da época. Esse enquadramento negativo foi decisivo para sua exclusão das narrativas históricas oficiais.
As contradições em “Os Sertões” e o olhar de Euclides da Cunha
Na obra “Os Sertões”, Euclides da Cunha descreveu as mulheres de Canudos de modo ambíguo. Embora as classificasse como “fanáticas” e “histerizadas pela fé”, suas descrições revelam, ainda que involuntariamente, a coragem e a determinação dessas mulheres. Elas enfrentaram o cerco militar com bravura, cavaram trincheiras, protegeram seus filhos e se recusaram a abandonar o arraial, mesmo diante da fome e da destruição. Suas ações demonstram uma força política e moral que ultrapassava os limites impostos pelo gênero.
O Silêncio historiográfico e a exclusão das vozes femininas
O esquecimento das mulheres de Canudos na historiografia brasileira está ligado à forma como as fontes foram produzidas e interpretadas. A história oficial, moldada por uma visão elitista e masculina, privilegiou as narrativas militares e positivistas, relegando as experiências populares ao silêncio. A ausência de registros diretos das mulheres de Canudos não significa ausência de protagonismo, mas sim o resultado de um processo de apagamento histórico.
A redescoberta historiográfica das mulheres de canudos
Estudos posteriores, conduzidos por historiadoras como Maria Isaura Pereira de Queiroz e Luiza Lobo, resgataram o papel das mulheres de Canudos como pilares da comunidade conselheirista. Essas pesquisas revelam que as mulheres não eram apenas participantes, mas estruturantes do movimento. Elas atuavam nas decisões coletivas, mediavam conflitos e mantinham a fé e a coesão social mesmo sob intensa repressão. Sua atuação cotidiana configurava uma forma de resistência simbólica e política.
A resistência feminina como ato político
Reinterpretar a atuação feminina em Canudos é reconhecer a dimensão política da resistência cotidiana. As mulheres transformaram o cuidado, a maternidade e a fé em instrumentos de luta contra a opressão. Manter as crianças vivas, alimentar os combatentes e preservar a espiritualidade da comunidade eram atos de insurgência.
A resistência feminina em Belo Monte rompeu os limites da guerra e revelou uma nova forma de protagonismo, baseada na solidariedade e na persistência.
Conclusão
A história das mulheres de Canudos é uma história de resistência, coragem e invisibilidade imposta. Dar visibilidade a essas figuras é questionar a própria metodologia com que a historiografia tradicional construiu o passado brasileiro. Ao reconhecer sua agência nas esferas econômica, religiosa e militar, amplia-se o entendimento sobre o sertão e sobre as múltiplas formas de luta contra a marginalização. As mulheres de Canudos não foram apenas espectadoras da história, mas autoras de uma resistência cuja memória sobreviveu ao tempo, ao silêncio das fontes e ao positivismo excludente da Primeira República.
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| Mulheres e crianças, seguidoras de Antônio Conselheiro, presas durante os últimos dias da guerra. |
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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 20/10/2025
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Fontes de Pesquisa e Bibliografia Indicada
Fontes de referência:
Cronologia resumida da Guerra de Canudos - Museu da República (pdf)

