Estado Novo de Vargas: o que foi, contexto, características e término

Propaganda do Estado Novo
Propaganda do Estado Novo



O que foi o Estado Novo


O Estado Novo foi um regime de caráter autoritário implantado no Brasil sob a liderança de Getúlio Vargas, que vigorou entre 1937 e 1945. Esse período foi marcado por uma centralização extrema do poder nas mãos do Executivo, suprimindo liberdades civis e políticas, dissolvendo o Congresso Nacional, proibindo partidos políticos e instaurando um governo baseado na figura do líder carismático e na exaltação do nacionalismo. Inspirado por tendências autoritárias que se disseminavam no mundo nas décadas de 1930 e 1940, como o fascismo europeu, o Estado Novo buscou promover um projeto de modernização conservadora, aliando o desenvolvimento industrial ao controle político rígido da sociedade. O governo varguista, durante essa fase, concentrou esforços em construir um Estado forte, intervencionista e disciplinador, que ao mesmo tempo em que sufocava opositores, criava mecanismos de inclusão simbólica das massas trabalhadoras por meio da propaganda e da legislação trabalhista.



Contexto histórico da implantação do Estado Novo


A ascensão do Estado Novo está inserida em um contexto de instabilidade política e econômica tanto no Brasil quanto no cenário internacional. Desde 1930, Vargas já exercia o poder de forma provisória, após liderar um movimento que depôs o presidente Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes. Em 1934, assumiu o cargo de presidente eleito de forma indireta pela Assembleia Constituinte, mas sua permanência no poder se manteve cercada por tensões. A década de 1930 foi marcada por crises econômicas derivadas da Grande Depressão de 1929, que impactaram profundamente a economia cafeeira brasileira e incentivaram a busca por alternativas de industrialização e diversificação econômica.

Internamente, o país enfrentava ameaças reais e construídas de desestabilização. A Intentona Comunista de 1935, tentativa de golpe de inspiração marxista liderada por setores militares e civis de esquerda, foi usada pelo governo como justificativa para endurecer as medidas de repressão e cerceamento das liberdades civis. Além disso, havia o crescimento da Ação Integralista Brasileira, um movimento de inspiração fascista, que também apresentava riscos ao controle governamental. Diante dessa conjuntura, Getúlio Vargas articulou, junto aos setores militares e políticos conservadores, o golpe de 1937. A alegação utilizada foi a descoberta do chamado Plano Cohen, um suposto plano comunista de tomada do poder (posteriormente revelado como falso), que serviu como pretexto para a decretação do estado de guerra e a promulgação de uma nova constituição, a chamada Constituição Polaca, instaurando formalmente o Estado Novo.

 

Manifestação de apoio a Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, 19 de abril de 1942

Durante o Estado Novo, manifestações populares em apoio a Getúlio Vargas foram estimuladas pelo uso da propaganda estatal e pelo culto à personalidade. Muitas dessas mobilizações reuniam trabalhadores urbanos que viam em Vargas um defensor de seus direitos. A imagem de "pai dos pobres" consolidou a adesão popular ao regime, especialmente entre as classes mais baixas. (foto de Manifestação de apoio a Getúlio Vargas em frente da Câmara dos Deputados, 19 de abril de 1942).




Principais características do Estado Novo:



- Centralização do poder: o Estado Novo concentrou a autoridade nas mãos do presidente da República, que passou a governar por meio de decretos-leis, sem a mediação de um parlamento. A dissolução do Congresso Nacional e a suspensão da Constituição de 1934 conferiram a Vargas plenos poderes, criando um regime presidencialista extremo.

- Supressão das liberdades civis: durante o Estado Novo, os direitos civis e políticos foram amplamente restringidos. A censura prévia aos meios de comunicação foi institucionalizada, os partidos políticos foram extintos, o direito de greve foi proibido e os opositores do regime foram perseguidos, presos e, em muitos casos, torturados. A repressão era comandada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

- Nacionalismo autoritário: o regime promoveu uma ideologia nacionalista que buscava a unidade e a identidade do povo brasileiro sob a liderança central do Estado. Essa ideologia foi marcada por discursos de exaltação à pátria, ao trabalho e à figura do presidente, considerado um "pai dos pobres". Elementos culturais estrangeiros, especialmente os de origem alemã, italiana e japonesa, foram reprimidos durante a Segunda Guerra Mundial.

- Propaganda política e culto à personalidade: o governo Vargas utilizou de maneira intensa os meios de comunicação para difundir uma imagem positiva do regime e do próprio presidente. O DIP coordenava campanhas que exaltavam os feitos do Estado e construíam uma imagem paternalista de Vargas. O culto à personalidade consolidou-se por meio de slogans, músicas, filmes e discursos transmitidos pelo rádio, o principal veículo de massas da época.

- Corporativismo e legislação trabalhista: o Estado Novo incorporou a ideia de corporativismo, inspirada nos modelos europeus autoritários, para organizar a sociedade em torno de categorias profissionais sob o controle do Estado. Nesse sentido, foram criadas instituições como a Justiça do Trabalho e aprovada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1943, que unificou e regulamentou os direitos trabalhistas. Ainda que tivesse objetivos de controle social, a legislação fortaleceu a imagem de Vargas junto às classes trabalhadoras.

- Intervencionismo econômico: o governo do Estado Novo adotou uma postura intervencionista na economia, promovendo a industrialização por meio de investimentos estatais em setores estratégicos, como energia e transportes. Foram criadas empresas como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Companhia Vale do Rio Doce e a Fábrica Nacional de Motores, impulsionando a infraestrutura do país e preparando o terreno para um novo modelo de desenvolvimento econômico.

- Educação e cultura sob controle do Estado: a política educacional do Estado Novo foi orientada por uma lógica de disciplinamento e nacionalização. O ensino foi utilizado como instrumento de propaganda e formação do cidadão ideal para o regime. A cultura passou a ser controlada por meio da censura e da produção de conteúdos que reforçavam a ideologia oficial. Órgãos como o Instituto Nacional do Livro e o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional foram utilizados tanto para promover a cultura como para moldá-la aos interesses do Estado.

 

Foto de Getúlio Vargas em 1939, entre dois militares, na comemoração de 50 anos da Proclamação da República.

Getúlio Vargas (centro) em 1939, entre dois militares, na comemoração de 50 anos da Proclamação da República.



Fim do Estado Novo


O Estado Novo chegou ao fim em 1945, como resultado de uma série de transformações no cenário interno e externo que tornaram insustentável a continuidade do regime autoritário. A Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939, teve impacto direto sobre a conjuntura brasileira. A aliança do Brasil com os países democráticos — Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética — e a consequente participação do país no conflito contra os regimes fascistas criaram uma contradição evidente: internamente, o Brasil mantinha um regime autoritário, enquanto no exterior combatia o totalitarismo.

Esse paradoxo passou a ser questionado por setores da sociedade civil, das Forças Armadas e da imprensa, que começaram a exigir a redemocratização do país. As pressões internas aumentaram também com o crescimento de uma oposição organizada, o fortalecimento de movimentos estudantis e sindicais, e o surgimento de novos partidos políticos, como a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD), sinalizando uma demanda crescente por abertura política.

Em outubro de 1945, diante da iminência de um novo ciclo eleitoral e temendo que Getúlio Vargas resistisse à convocação de eleições livres, setores das Forças Armadas lideraram um movimento que resultou na deposição do presidente. O golpe militar de 29 de outubro de 1945 foi relativamente pacífico e contou com o apoio de diversas forças políticas e sociais, marcando o fim do Estado Novo e o início de um processo de redemocratização, que culminaria na promulgação de uma nova constituição em 1946. A deposição de Vargas representou, assim, o encerramento de um ciclo autoritário e a reabertura do regime político às disputas eleitorais e ao pluralismo partidário.

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela USP).

Publicado em 21/03/2025