A Participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial

A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial representou um marco histórico ao consolidar sua presença no cenário internacional, com o envio de tropas à Europa e o fortalecimento de sua posição diplomática entre as nações aliadas.

Pilotos brasileiros que participaram da Segunda Guerra Mundial.
Pilotos brasileiros que participaram da Segunda Guerra Mundial.

 

Introdução e contexto histórico


A Segunda Guerra Mundial, deflagrada em 1939 com a invasão da Polônia pela Alemanha nazista, representou um dos maiores conflitos da história contemporânea, envolvendo dezenas de países e resultando em profundos impactos geopolíticos, econômicos e sociais. No cenário internacional polarizado entre os Aliados e as potências do Eixo, o Brasil inicialmente adotou uma postura de neutralidade, tentando preservar seus interesses comerciais com ambos os blocos. O governo de Getúlio Vargas, ciente da importância de manter boas relações tanto com a Alemanha quanto com os Estados Unidos, conduziu uma política de equilíbrio durante os primeiros anos da guerra.

No entanto, à medida que o conflito se intensificava e a posição dos países latino-americanos tornava-se estratégica para os planos de defesa dos Aliados, sobretudo dos Estados Unidos, o Brasil foi gradualmente abandonando a neutralidade. A aproximação com os norte-americanos se deu em um contexto de alianças hemisféricas e investimentos militares, o que acabaria conduzindo o país à participação ativa na guerra a partir de 1942. Esse engajamento alteraria não apenas a posição internacional do Brasil, mas também a dinâmica interna do país.

 

Motivos da entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial:


- Pressão diplomática e econômica dos Estados Unidos: os norte-americanos incentivaram o alinhamento do Brasil com os Aliados, oferecendo apoio militar e financeiro ao governo de Getúlio Vargas.

- Conferência do Rio de 1942: durante esse encontro, os Estados Unidos reforçaram a necessidade de colaboração do Brasil contra as potências do Eixo.

- Construção de bases estratégicas: a base aérea de Natal e outras instalações no Nordeste foram cedidas aos Aliados para operações no Atlântico e na África.

- Ataques de submarinos do Eixo: entre julho e agosto de 1942, embarcações civis brasileiras foram afundadas por forças alemãs e italianas, principalmente no litoral nordestino.

- Declaração formal de guerra: diante da comoção popular e da pressão interna, o Brasil rompeu com a neutralidade e declarou guerra à Alemanha e à Itália em 22 de agosto de 1942, sendo o único país sul-americano a enviar tropas de combate à Europa.

 

 

Cartaz de propaganda do Brasil na Segunda Guerra Mundial

Propaganda Brasileira anunciando declaração Guerra as potências do Eixo (10 de novembro de 1943).

 

 

A Força Expedicionária Brasileira (FEB)

 

A criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi a principal expressão da participação militar direta do Brasil na guerra. Formada por cerca de 25 mil homens, a FEB foi organizada ao longo de 1943 e 1944, enfrentando inúmeros desafios logísticos e estruturais, desde a falta de equipamentos até o despreparo inicial das tropas. A campanha publicitária com o lema “A cobra vai fumar”, em alusão à crença de que seria mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil ir à guerra, tornou-se símbolo da resistência e superação das dificuldades.

Em julho de 1944, as tropas brasileiras desembarcaram na Itália, onde integraram a 5ª Exército norte-americana no front de batalha contra os alemães e os fascistas italianos. A FEB participou de importantes operações militares na região da Toscana e nos Apeninos, contribuindo significativamente para a libertação de cidades como Monte Castelo, Castelnuovo, Montese e Fornovo di Taro. As batalhas foram intensas e marcaram os soldados brasileiros, muitos dos quais enfrentavam pela primeira vez o rigor do inverno europeu e os horrores do combate. Cerca de 450 militares brasileiros morreram em território europeu.

 

Foto de soldados da FEB saudados na Itália

Foto de soldados da FEB saudados na Itália (foto de 1944).



Outras Contribuições Brasileiras

 

A participação brasileira não se limitou à FEB. A Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Primeiro Grupo de Aviação de Caça, atuou em missões de bombardeio e apoio aéreo próximo, acumulando um número expressivo de operações e reconhecimentos por sua eficácia. Os pilotos brasileiros, voando aviões Thunderbolt P-47, destruíram posições inimigas, comboios e infraestruturas estratégicas, contribuindo para o avanço aliado na Itália.

A Marinha do Brasil também desempenhou um papel crucial na patrulha do Atlântico Sul, combatendo submarinos inimigos e escoltando comboios aliados. O esforço naval brasileiro foi essencial para a proteção das rotas marítimas entre a América do Sul, a África e a Europa. Além das contribuições militares, o Brasil forneceu matérias-primas como borracha e minérios, além de apoiar diplomaticamente os interesses dos Aliados em fóruns internacionais. A construção de bases militares, o envio de alimentos e o suporte logístico ampliaram a relevância do país no esforço de guerra.



Principais consequências:

 

- Impactos econômicos internos: a participação na guerra acelerou a industrialização, com destaque para os setores bélico e de infraestrutura de transportes.

- Relações com os Estados Unidos: o estreitamento dos laços trouxe investimentos ao Brasil, mas também aumentou a dependência econômica em relação ao país norte-americano.

- Transformações sociais e políticas: a vivência da guerra favoreceu o amadurecimento político da população brasileira e contribuiu para a redemocratização após a queda de Getúlio Vargas em 1945.

- Reconhecimento internacional: a atuação do Brasil no conflito resultou em prestígio diplomático e na consolidação do país como liderança regional na América Latina.

- Participação na ONU: o Brasil tornou-se membro fundador da Organização das Nações Unidas, fortalecendo sua posição nas negociações do pós-guerra como nação atuante no cenário global.



Legado histórico e cultural

O legado histórico e cultural da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial é expressivo. A memória dos pracinhas da FEB permanece viva em monumentos, livros, filmes e museus, simbolizando o esforço e o sacrifício de uma geração. A guerra deixou marcas profundas nos soldados e suas famílias, além de influenciar a cultura política do país nas décadas seguintes. A experiência militar no exterior também contribuiu para ampliar a visão dos brasileiros sobre o mundo e sobre o papel do Brasil no cenário mundial.

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela USP)

Publicado em 02/04/2025