A Política no Brasil durante o Segundo Reinado

A política do Segundo Reinado (1840–1889) foi marcada pela monarquia parlamentar, pelo Poder Moderador de D. Pedro II, pela alternância entre liberais e conservadores e pela centralização política do Império.

Dom Pedro II: imperador do Brasil durante o Segundo Reinado
Dom Pedro II: imperador do Brasil durante o Segundo Reinado

 

Introdução



O Segundo Reinado foi o período da História do Brasil compreendido entre 1840 e 1889, quando o país foi governado por D. Pedro II. Essa fase começou com a antecipação da maioridade do imperador e terminou com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. Durante quase cinco décadas, o Brasil manteve uma monarquia constitucional baseada na Constituição de 1824 e em instituições como o Parlamento, o Conselho de Ministros e o Poder Moderador.

Apesar de apresentar relativa estabilidade institucional em comparação com o Período Regencial, o Segundo Reinado foi marcado por disputas entre grupos políticos, centralização administrativa, participação eleitoral limitada e forte influência das elites agrárias. Liberais e conservadores dominaram a vida política, enquanto a maior parte da população permanecia afastada das decisões do Estado.

Nas últimas décadas do século XIX, o regime monárquico passou a enfrentar dificuldades crescentes. O fortalecimento do Exército após a Guerra do Paraguai, os conflitos com setores da Igreja Católica, o crescimento do republicanismo e as consequências políticas da abolição da escravidão contribuíram para o enfraquecimento da monarquia.



O início do Segundo Reinado e o Golpe da Maioridade


Após a abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, seu filho Pedro de Alcântara tinha apenas cinco anos e não poderia assumir o trono. Por essa razão, o Brasil passou a ser governado por regentes durante o chamado Período Regencial, entre 1831 e 1840. Esse período foi marcado por forte instabilidade política e por revoltas provinciais, como Cabanagem, Balaiada, Sabinada e Farroupilha.

Diante dessa situação, setores do Partido Liberal passaram a defender a antecipação da maioridade de Pedro de Alcântara. Os liberais acreditavam que a presença de um imperador poderia contribuir para estabilizar o país e, ao mesmo tempo, permitir que recuperassem influência política.

Em julho de 1840, Pedro de Alcântara foi declarado maior de idade aos 14 anos. O episódio ficou conhecido como Golpe da Maioridade porque antecipou sua maioridade política, prevista constitucionalmente para ocorrer posteriormente. Com sua coroação, iniciou-se o Segundo Reinado.



A Constituição de 1824 e a organização política do Império



A Constituição de 1824 permaneceu em vigor durante todo o Segundo Reinado. Outorgada por D. Pedro I, estabelecia uma monarquia constitucional hereditária e organizava o Estado brasileiro por meio de quatro poderes.

O Poder Executivo era exercido pelo imperador e pelos ministros. O Legislativo era formado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. O Judiciário era responsável pela aplicação das leis e pela administração da Justiça.

O elemento mais particular do sistema político era o Poder Moderador. Pela Constituição, ele deveria funcionar como um mecanismo destinado a garantir o equilíbrio entre os demais poderes. Na prática, porém, concedia ao imperador amplas possibilidades de intervenção na vida política.

Esse modelo favorecia a centralização do Estado. Embora existissem instituições representativas, o imperador exercia influência significativa sobre a composição dos governos e sobre o funcionamento do Parlamento.



O Poder Moderador e a autoridade de D. Pedro II



O Poder Moderador era exercido exclusivamente pelo imperador. Entre suas atribuições estavam a nomeação de senadores, a escolha e substituição de ministros, a dissolução da Câmara dos Deputados e a convocação de novas eleições.

D. Pedro II utilizou essas prerrogativas para atuar como elemento central do sistema político. Embora não governasse sozinho, sua posição institucional permitia interferir diretamente na formação dos gabinetes ministeriais.

O Senado também reforçava a influência monárquica. Os senadores ocupavam cargos vitalícios e eram escolhidos pelo imperador a partir de listas formadas em eleições provinciais.

A existência do Poder Moderador diferenciava o sistema brasileiro de outras monarquias constitucionais do período e limitava a autonomia do Parlamento diante do chefe de Estado.



Partido Liberal e Partido Conservador



A vida política do Segundo Reinado foi dominada principalmente pelo Partido Liberal e pelo Partido Conservador. Ambos representavam sobretudo setores das elites econômicas e políticas brasileiras.

Os conservadores defendiam, em geral, maior centralização administrativa e fortalecimento da autoridade do governo imperial. Muitos de seus integrantes eram grandes proprietários rurais, comerciantes e funcionários públicos.

Os liberais tendiam a defender maior autonomia provincial e algumas reformas no funcionamento das instituições. Contudo, também eram formados principalmente por proprietários, profissionais liberais e integrantes das elites regionais.

Apesar das divergências, os dois partidos compartilhavam diversos interesses. Durante grande parte do Segundo Reinado, ambos aceitaram a monarquia, a propriedade privada, a participação política restrita e a manutenção da escravidão.



As diferenças entre liberais e conservadores



As principais diferenças entre liberais e conservadores estavam relacionadas à organização administrativa do Império e à distribuição de poder entre o governo central e as províncias.

Os conservadores geralmente favoreciam a centralização política e a manutenção de maior autoridade para o governo imperial. Consideravam que um Estado centralizado era importante para garantir a ordem e impedir movimentos separatistas ou revoltas provinciais.

Os liberais costumavam defender maior autonomia para as províncias, algumas reformas eleitorais e limites à intervenção do governo central. Entretanto, essas posições nem sempre eram mantidas quando o partido assumia o poder.

As diferenças, portanto, eram reais, mas não representavam projetos sociais completamente opostos. Ambos os partidos estavam profundamente vinculados às estruturas econômicas e sociais do Brasil imperial.



O parlamentarismo no Segundo Reinado



Em 1847, foi criado o cargo de presidente do Conselho de Ministros, função semelhante à de primeiro-ministro. A medida fortaleceu o funcionamento parlamentar do governo brasileiro.

O presidente do Conselho coordenava os ministros e organizava o gabinete responsável pela administração do país. Para governar com estabilidade, o gabinete precisava contar com apoio da maioria da Câmara dos Deputados.

Esse sistema aproximava o Brasil das monarquias parlamentares europeias. Entretanto, havia uma diferença fundamental: o imperador tinha participação direta na escolha do chefe do governo.

Dessa forma, o parlamentarismo brasileiro combinava elementos parlamentares com a forte autoridade constitucional de D. Pedro II.



O parlamentarismo às avessas



O sistema político do Segundo Reinado ficou conhecido como “parlamentarismo às avessas”. A expressão surgiu porque o funcionamento brasileiro apresentava diferenças importantes em relação ao modelo britânico.

Na Grã-Bretanha, o chefe de governo normalmente resultava da maioria parlamentar. No Brasil, o processo podia ocorrer no sentido contrário. O imperador escolhia o presidente do Conselho de Ministros e, caso o gabinete não tivesse apoio parlamentar suficiente, podia dissolver a Câmara e convocar novas eleições.

Por essa razão, o governo não dependia exclusivamente da vontade dos deputados eleitos. O Poder Moderador permitia que D. Pedro II tivesse influência decisiva sobre a alternância dos gabinetes.

A expressão não significa que o Parlamento não possuísse importância. Deputados, senadores e partidos tinham atuação relevante, mas funcionavam dentro de um sistema em que o imperador conservava amplos poderes.



A alternância entre liberais e conservadores



Liberais e conservadores alternaram-se diversas vezes no governo ao longo do Segundo Reinado. Quando um gabinete perdia apoio político ou entrava em conflito com o imperador, outro grupo podia ser chamado para organizar um novo ministério.

Em alguns momentos, D. Pedro II convocava o partido de oposição para formar o governo. Depois, novas eleições eram realizadas para tentar produzir uma maioria parlamentar favorável ao gabinete recém-formado.

Essa alternância contribuiu para a estabilidade do sistema, pois permitia substituir governos sem romper com a ordem monárquica. Entretanto, também demonstrava o papel central do imperador no funcionamento político.

Como os dois partidos representavam setores semelhantes da sociedade, as mudanças de gabinete nem sempre provocavam transformações profundas na estrutura social e econômica do país.



O Ministério da Conciliação



Em 1853, o marquês de Paraná, Honório Hermeto Carneiro Leão, organizou um gabinete conhecido como Ministério da Conciliação. Seu objetivo era diminuir as disputas entre liberais e conservadores.

A proposta consistia em reunir políticos moderados dos dois grupos e estabelecer uma administração capaz de garantir maior estabilidade institucional. A política de conciliação ocorreu em um momento de fortalecimento do Estado imperial após as turbulências das décadas anteriores.

Embora não tenha eliminado as disputas partidárias, a conciliação contribuiu para reduzir temporariamente os confrontos entre as principais forças políticas.

O período também demonstrou que as diferenças entre liberais e conservadores podiam ser flexibilizadas quando estavam em jogo interesses relacionados à manutenção da ordem imperial.



As eleições durante o Segundo Reinado



O sistema eleitoral do Império era bastante restritivo. O voto não era universal e somente determinados homens livres podiam participar das eleições.

Durante grande parte do Segundo Reinado, as eleições eram indiretas. Os cidadãos que cumpriam os requisitos legais escolhiam eleitores, e estes participavam da escolha dos deputados e de outros representantes.

A renda era um dos critérios utilizados para definir quem poderia participar do processo eleitoral. Dessa maneira, os setores mais pobres tinham maiores dificuldades para exercer direitos políticos.

As mulheres não possuíam direito ao voto. Os escravizados também estavam completamente excluídos da cidadania política. Como resultado, somente uma parcela limitada da população participava oficialmente das eleições.



Fraudes eleitorais e controle político



As eleições do Segundo Reinado eram frequentemente marcadas por fraudes, pressões políticas e violência. Grandes proprietários e autoridades locais exerciam forte influência sobre os eleitores.

Em determinadas regiões, grupos políticos utilizavam ameaças ou força física para controlar votações. Um exemplo ocorreu nas chamadas “eleições do cacete”, realizadas em 1840, quando episódios de violência foram registrados durante disputas eleitorais.

Também podiam ocorrer manipulação das listas de eleitores, compra de votos e intervenção de autoridades locais. Esses mecanismos favoreciam os grupos políticos que controlavam determinadas regiões.

As eleições existiam e possuíam importância institucional, mas apresentavam limitações significativas quanto à participação popular e à liberdade de escolha.



A Lei Saraiva e a reforma eleitoral de 1881


Em 1881, foi aprovada a Lei Saraiva, importante reforma eleitoral do Segundo Reinado. Entre suas principais mudanças esteve a introdução de eleições diretas para determinados cargos políticos.

A nova legislação eliminou o sistema de votação em dois níveis para a escolha dos representantes. Dessa maneira, os eleitores habilitados passaram a votar diretamente nos candidatos.

Entretanto, a Lei Saraiva também estabeleceu novas limitações. A exigência de alfabetização passou a excluir grande parte da população adulta masculina, pois o analfabetismo era elevado no Brasil do século XIX.

Assim, embora a eleição direta possa ser considerada uma modernização institucional, a quantidade de pessoas efetivamente autorizadas a votar diminuiu de maneira significativa.



A participação política da população



A participação política durante o Segundo Reinado era bastante limitada. Mulheres, escravizados, analfabetos após a reforma de 1881 e muitos homens pobres estavam excluídos do processo eleitoral.

Mesmo entre aqueles que podiam votar, a autonomia política podia ser reduzida pela influência de grandes proprietários rurais e chefes políticos locais.

Isso não significa que os grupos excluídos permanecessem completamente afastados da política. Trabalhadores urbanos, pessoas negras livres, escravizados, jornalistas, integrantes de associações e outros setores sociais participaram de manifestações, campanhas públicas, revoltas e movimentos políticos.

A política brasileira, portanto, não se restringia às instituições oficiais. As ações sociais fora do Parlamento também exerceram pressão sobre o Estado imperial.



A Revolução Praieira e os conflitos políticos


A Revolução Praieira ocorreu em Pernambuco entre 1848 e 1850. Foi uma das principais revoltas do início do Segundo Reinado e resultou de conflitos políticos, econômicos e sociais existentes na província.

O movimento recebeu esse nome porque seus integrantes estavam vinculados ao jornal “Diário Novo”, cuja sede ficava na Rua da Praia, no Recife. Os praieiros eram ligados a setores liberais que se opunham ao domínio político das oligarquias locais.

Entre suas reivindicações estavam maior liberdade política, reformas eleitorais e ampliação da participação dos brasileiros em determinadas atividades econômicas.

O governo imperial reprimiu militarmente a revolta. Sua derrota contribuiu para consolidar a autoridade do governo central e encerrou o ciclo das grandes revoltas provinciais iniciado durante o Período Regencial.



Centralização política e autonomia das províncias



O Segundo Reinado manteve uma estrutura política fortemente centralizada. O governo imperial exercia considerável influência sobre as administrações provinciais.

Os presidentes das províncias eram nomeados pelo governo central, o que limitava a autonomia política das regiões. Essa organização facilitava o controle da administração imperial sobre diferentes partes do território.

Os liberais frequentemente criticavam a centralização e defendiam maior autonomia provincial. Os conservadores, por outro lado, consideravam que a concentração de poder era necessária para preservar a unidade do país.

A centralização foi importante para a consolidação territorial do Estado brasileiro, mas também provocou conflitos entre interesses regionais e o governo central.



As elites agrárias e o poder político



A política do Segundo Reinado esteve fortemente vinculada às elites agrárias. Grandes proprietários de terras exerciam influência econômica e política tanto nas províncias quanto nas instituições nacionais.

A expansão da cafeicultura, principalmente no Sudeste, aumentou o poder econômico dos cafeicultores. Muitos deles passaram a ocupar posições importantes na administração, no Parlamento e nos partidos políticos.

O acesso ao poder estava relacionado à riqueza, à propriedade da terra, às redes familiares e às relações pessoais com autoridades locais e nacionais.

Essa situação contribuiu para manter a política concentrada nas mãos de grupos relativamente pequenos, enquanto a maior parte da população tinha pouca participação direta nas decisões do Estado.



Escravidão e política no Segundo Reinado



A escravidão constituiu uma das bases econômicas e sociais do Brasil durante grande parte do Segundo Reinado. A produção agrícola destinada à exportação, especialmente o café, utilizava amplamente o trabalho de pessoas escravizadas.

Muitos integrantes das elites políticas eram proprietários de escravizados ou estavam economicamente ligados às atividades baseadas no trabalho escravo. Por esse motivo, as propostas de abolição enfrentaram forte resistência durante décadas.

A partir da segunda metade do século XIX, porém, a escravidão passou a sofrer pressões crescentes. Mudanças econômicas, resistência dos próprios escravizados, mobilização abolicionista e transformações políticas aumentaram os questionamentos ao sistema.

O debate sobre a escravidão tornou-se gradualmente uma das principais questões políticas do Império.



O movimento abolicionista e a política imperial



O movimento abolicionista ganhou força principalmente nas décadas de 1870 e 1880. Diferentes grupos sociais participaram da campanha pelo fim da escravidão.

Jornalistas, advogados, intelectuais, parlamentares, estudantes, trabalhadores urbanos, associações abolicionistas e setores populares organizaram manifestações, campanhas de arrecadação para libertação de escravizados e ações de propaganda.

Pessoas negras tiveram atuação decisiva nesse processo. Entre os nomes de destaque estiveram Luiz Gama, José do Patrocínio e André Rebouças. A resistência dos próprios escravizados, por meio de fugas, revoltas e formação de redes de apoio, também contribuiu diretamente para enfraquecer o sistema.

O crescimento do abolicionismo aumentou a pressão sobre o Parlamento e sobre o governo imperial, tornando a continuidade da escravidão cada vez mais difícil.



As leis abolicionistas e seus impactos políticos



O processo de abolição ocorreu de maneira gradual. Em 1850, a Lei Eusébio de Queirós proibiu efetivamente o tráfico transatlântico de africanos escravizados para o Brasil.

Em 1871, a Lei do Ventre Livre determinou que os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir de sua aprovação seriam juridicamente livres, embora permanecessem submetidos a diferentes formas de tutela durante parte da juventude.

Em 1885, a Lei dos Sexagenários concedeu liberdade aos escravizados com mais de 60 anos, dentro das condições estabelecidas pela legislação.

Finalmente, em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel, exercendo a Regência, sancionou a Lei Áurea, extinguindo juridicamente a escravidão no Brasil.

A abolição representou uma transformação histórica fundamental. Politicamente, porém, também contribuiu para afastar da monarquia alguns proprietários escravistas que esperavam indenizações pela perda daquilo que consideravam sua propriedade.



A Guerra do Paraguai e seus efeitos políticos



A Guerra do Paraguai ocorreu entre 1864 e 1870 e envolveu o Paraguai contra a Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai.

O conflito provocou grande mobilização de recursos financeiros e humanos. Milhares de brasileiros foram enviados para os campos de batalha, entre soldados regulares, voluntários e homens recrutados.

Após a guerra, o Exército brasileiro adquiriu maior importância institucional e maior consciência de sua própria força política. Oficiais passaram a reivindicar maior reconhecimento profissional e autonomia diante do governo civil.

A experiência do conflito também fortaleceu vínculos entre militares e novas correntes de pensamento, incluindo o positivismo e o republicanismo. Nas décadas seguintes, setores do Exército teriam participação crescente nas disputas políticas do Império.



A Questão Religiosa



A Constituição de 1824 estabelecia o catolicismo como religião oficial do Império. Ao mesmo tempo, o Estado exercia influência sobre a Igreja Católica por meio do regime do padroado.

Nesse sistema, decisões importantes da Igreja no Brasil dependiam da aprovação do governo imperial. Durante a década de 1870, essa relação passou por uma grave crise.

Bispos como Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, de Olinda, e Dom Antônio de Macedo Costa, do Pará, adotaram medidas contra irmandades religiosas que mantinham integrantes ligados à maçonaria.

Como as medidas eclesiásticas não tinham recebido aprovação do governo imperial, surgiu um conflito entre os bispos e o Estado. Os religiosos foram condenados e presos, embora posteriormente tenham recebido anistia.

A chamada Questão Religiosa desgastou as relações entre a monarquia e parte do clero, diminuindo uma das tradicionais bases de apoio do regime imperial.



A Questão Militar



Nas décadas de 1870 e 1880, as relações entre o governo imperial e setores do Exército tornaram-se cada vez mais tensas.

Oficiais criticavam aquilo que consideravam falta de reconhecimento político e profissional. Também surgiram conflitos relacionados ao direito dos militares de manifestarem publicamente suas opiniões.

Parte dos oficiais mais jovens entrou em contato com ideias positivistas e republicanas, especialmente nas escolas militares. Essas correntes defendiam transformações políticas e criticavam determinadas características da monarquia.

A chamada Questão Militar aproximou setores do Exército da oposição ao Império. Em 1889, militares tiveram participação decisiva na derrubada da monarquia.



O crescimento do republicanismo



O republicanismo ganhou maior organização política a partir da década de 1870. Em 3 de dezembro daquele ano foi publicado o Manifesto Republicano, documento que criticava a monarquia e defendia a adoção da República.

Nos anos seguintes, surgiram clubes, jornais e partidos republicanos em diferentes regiões brasileiras. Em São Paulo, por exemplo, foi fundado em 1873 o Partido Republicano Paulista.

Os republicanos não formavam um grupo homogêneo. Alguns defendiam mudanças graduais e participação eleitoral, enquanto outros aproximavam-se dos militares e defendiam uma ruptura mais rápida com a monarquia.

A defesa do federalismo também ganhou destaque. Muitos republicanos criticavam a centralização imperial e propunham maior autonomia para as províncias, que posteriormente seriam transformadas em estados.



A crise política do Segundo Reinado



Nas décadas finais do século XIX, diferentes problemas começaram a atingir simultaneamente as bases de sustentação da monarquia.

A Questão Religiosa afastou setores da Igreja. A Questão Militar ampliou a insatisfação entre oficiais do Exército. O movimento republicano cresceu entre setores urbanos, militares e proprietários rurais de determinadas regiões.

A abolição da escravidão também produziu consequências políticas. Parte dos antigos proprietários de escravizados rompeu com a monarquia por não receber indenização.

Ao mesmo tempo, D. Pedro II estava envelhecido e não havia um herdeiro masculino direto. Sua filha, a princesa Isabel, era a sucessora do trono, mas sua eventual ascensão não despertava apoio suficiente entre determinados grupos políticos.

A combinação desses fatores enfraqueceu progressivamente o regime imperial.



O fim do Segundo Reinado e a Proclamação da República



Em novembro de 1889, rumores sobre mudanças no governo e possíveis punições a militares aumentaram a tensão política no Rio de Janeiro.

Na manhã de 15 de novembro, tropas comandadas pelo marechal Deodoro da Fonseca mobilizaram-se contra o governo. O gabinete chefiado pelo visconde de Ouro Preto foi derrubado.

Inicialmente, a movimentação militar não possuía necessariamente um programa republicano completamente definido. Entretanto, republicanos civis e militares atuaram para transformar a crise ministerial em mudança de regime.

A República foi proclamada em 15 de novembro de 1889. D. Pedro II e a família imperial foram posteriormente enviados para o exílio.

A mudança ocorreu sem grande participação popular direta. A maior parte da população do Rio de Janeiro acompanhou os acontecimentos sem exercer influência decisiva sobre a substituição da monarquia pela República.



Características gerais da política no Segundo Reinado



A política brasileira durante o Segundo Reinado combinou elementos constitucionais e representativos com forte concentração de poder.

O Brasil possuía Parlamento, eleições, partidos políticos, ministros e uma Constituição. Entretanto, o imperador exercia amplas prerrogativas por meio do Poder Moderador.

Liberais e conservadores dominaram a política institucional e representavam principalmente interesses das elites. A participação eleitoral era restrita e grande parcela da sociedade não possuía direitos políticos.

O sistema parlamentar permitiu relativa estabilidade governamental, mas dependia fortemente da atuação do imperador. Nas décadas finais do século XIX, essas instituições passaram a enfrentar crises cada vez mais profundas.



Contradições do sistema político imperial



Uma das principais contradições do Segundo Reinado estava na existência simultânea de instituições liberais e fortes mecanismos de exclusão política.

A Constituição previa representação parlamentar e eleições, mas apenas uma pequena parcela da população participava efetivamente do processo político. Mulheres, escravizados e vários segmentos de baixa renda permaneciam excluídos.

Outra contradição importante era a coexistência entre ideias liberais e uma sociedade escravista. Parte das elites defendia princípios como liberdade econômica e representação política, enquanto mantinha centenas de milhares de pessoas submetidas à escravidão.

Também existia uma tensão entre parlamentarismo e Poder Moderador. Embora o governo dependesse do funcionamento do Parlamento, o imperador possuía instrumentos para interferir diretamente na formação dos gabinetes e na composição da Câmara.

Essas contradições ajudam a compreender tanto a estabilidade inicial do regime quanto as dificuldades políticas enfrentadas durante suas últimas décadas.

 

Infográfico sobre a POlítica no Brasil durante o Segundo Reinado
Infográfico com síntese sobre a Política no Brasil durante o Segundo Reinado.

 

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Linha do tempo da Política no Brasil durante o Segundo Reinado:



1840 – Golpe da Maioridade: Pedro de Alcântara é declarado maior de idade aos 14 anos e assume o trono como D. Pedro II, encerrando o Período Regencial e iniciando o Segundo Reinado.

1841 – Restauração do Conselho de Estado: o governo fortalece mecanismos de centralização política e amplia a autoridade do poder imperial.

1842 – Revoltas Liberais: movimentos em São Paulo e Minas Gerais contestam medidas centralizadoras do governo conservador. As revoltas são reprimidas pelas forças imperiais.

1844 – Retorno dos liberais ao governo: D. Pedro II promove nova mudança ministerial e entrega o governo aos liberais, reforçando a prática de alternância entre os principais partidos.

1847 – Criação do cargo de presidente do Conselho de Ministros: o Brasil passa a adotar uma forma própria de parlamentarismo, na qual o imperador mantinha grande influência na escolha e substituição dos gabinetes.

1848 – Retorno dos conservadores ao poder: ocorre nova mudança ministerial, evidenciando a alternância entre liberais e conservadores sob influência do Poder Moderador.

1848–1850 – Revolução Praieira: movimento político ocorrido em Pernambuco reúne setores liberais contrários ao domínio das oligarquias locais e à centralização política. A revolta é reprimida pelo governo imperial.

1853 – Início do Ministério da Conciliação: o marquês de Paraná organiza um gabinete que procura reduzir as disputas entre liberais e conservadores e ampliar a estabilidade política do Império.

1857 – Fim do período mais representativo da Conciliação: as disputas partidárias voltam a ganhar força, embora continuasse a existir aproximação entre setores moderados dos dois principais partidos.

1862 – Formação da Liga Progressista: políticos liberais e conservadores moderados aproximam-se e formam uma nova articulação política, defendendo reformas institucionais.

1868 – Queda do gabinete de Zacarias de Góis e Vasconcelos: D. Pedro II substitui o ministério liberal e chama os conservadores para formar o governo. A decisão provoca críticas ao uso do Poder Moderador e contribui para fortalecer a oposição à monarquia.

1870 – Manifesto Republicano: publicado no Rio de Janeiro, o documento critica a monarquia e defende a implantação da República e do federalismo no Brasil.

1873 – Fundação do Partido Republicano Paulista: o republicanismo ganha maior organização política em São Paulo, especialmente entre setores ligados à economia cafeeira.

1872–1875 – Questão Religiosa: conflitos entre o governo imperial e bispos católicos revelam tensões provocadas pela interferência do Estado nos assuntos da Igreja e desgastam a relação entre o clero e a monarquia.

1878 – Retorno dos liberais ao governo: depois de aproximadamente uma década de domínio conservador, D. Pedro II convoca os liberais para formar um novo gabinete.

1881 – Lei Saraiva: reforma eleitoral institui eleições diretas para deputados e outras funções políticas, mas estabelece a alfabetização como requisito para o voto, reduzindo significativamente o eleitorado.

1883 – Crescimento da organização republicana: partidos, clubes e jornais republicanos ampliam sua atuação em diferentes províncias, tornando a crítica à monarquia mais organizada.

1884–1887 – Intensificação da Questão Militar: oficiais do Exército entram em sucessivos conflitos com o governo imperial por questões de disciplina, liberdade de manifestação e autonomia institucional.

1885 – Lei dos Sexagenários: a aprovação da medida relacionada à escravidão provoca novos debates parlamentares e aumenta as tensões entre abolicionistas, escravistas e governo.

1887 – Aumento da influência política do Exército: setores militares tornam-se mais críticos ao governo imperial e alguns oficiais aproximam-se abertamente de ideias republicanas e positivistas.

13 de maio de 1888 – Lei Áurea: a princesa Isabel, na condição de regente, sanciona a abolição definitiva da escravidão. A medida fortalece o apoio popular ao abolicionismo, mas contribui para afastar da monarquia parte dos antigos proprietários escravistas.

1888 – Crescimento da oposição monarquista entre antigos escravistas: setores agrários descontentes com a abolição sem indenização aproximam-se do republicanismo, ficando conhecidos em alguns contextos como “republicanos de 13 de maio”.

1889 – Gabinete do visconde de Ouro Preto: o governo liberal propõe reformas políticas destinadas a enfrentar a crise do Império, como maior autonomia provincial e ampliação de determinadas liberdades políticas.

15 de novembro de 1889 – Proclamação da República: militares liderados pelo marechal Deodoro da Fonseca derrubam o gabinete imperial no Rio de Janeiro. A monarquia é encerrada e inicia-se o regime republicano.

17 de novembro de 1889 – Exílio da família imperial: D. Pedro II e seus familiares deixam o Brasil, consolidando o fim político do Segundo Reinado.

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 01/09/2026